top of page

Poema  de uma jornada na Psicanálise,

 


Por R. Luchini



Há um ser feito de auroras partidas
que repousa no centro da minha história —
não como alguém,
mas como um sopro antigo da própria Terra,
um mistério vestido de vento,
uma chama que arde mesmo quando pensa ser cinza.
Desde cedo aprendi a caminhar
pelos corredores desse ser,
onde as paredes recitam segredos
em voz de tempestade,
e a luz se esconde como um animal ferido
debaixo das tábuas do tempo.
Ali, qualquer sombra podia pesar como montanha,
qualquer eco podia se transformar em abismo.
Às vezes, o céu dentro de mim
também esquecia o caminho do azul.
Havia noites em que as estrelas
se desmanchavam nos meus ombros
e o horizonte se partia em silêncio,
quase me levando junto.
Mas é estranho — e sagrado —
como o coração insiste em amar
aquilo que o feriu sem querer.
Eu nunca soube se buscava refúgio
ou se era o refúgio que buscava em mim;
apenas sei que ficava.
Ficava como ficam os rios,
mesmo quando a terra tenta bebê-los.
Esse ser-tempestade,
que não distingue amanhecer de neblina,
carrega dentro de si um inverno que não dorme.
E eu, com minhas mãos frágeis,
tento aquecer essa estação interminável
com pequenas brasas de esperança.
Às vezes basta um gesto,
um sussurro,
um toque inventado pela alma.
E assim vou acendendo manhãs
no lugar onde a noite insiste em morar.
Porque há existências que não se abandonam,
há lares que continuam mesmo quando desmoronam,
há vínculos que nascem antes da linguagem
e duram além do corpo.
Eu permaneço.
Não por obrigação,
mas porque o amor — o verdadeiro —
é essa força que desafia tempestades
e, mesmo esgotado,
ainda encontra fôlego
para erguer um sol dentro do impossível.
E um dia — eu sinto —
essa luz que cultivo em silêncio
vai romper o nevoeiro
e iluminar tudo.
Porque até as tempestades mais antigas
um dia se lembram
de como se respira a primavera.

Psicanálise



 
 
 

1 comentário


Jorge Luchini
Jorge Luchini
11 de jan.

Que mensagem linda de superação e de perseverança e principalmente de amor

Curtir
bottom of page